Colunas do Vagner

Ser Humano x Boneca

1/09/2018 às 14:32 | Tags:

Era uma vez Deus, e Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Por algum motivo, criou a mulher também. Idéias muito simplistas e machistas para mim.

Porque Deus tem que ser homem?
Porque ele teve que criar o homem primeiro e não pôde criar os dois juntos?
Não aceito que venham com aquela ideia “machista ao contrário” que Deus fez primeiro o homem como rascunho para depois fazer a mulher, sua obra-prima!!!

Prefiro acreditar que Deus criou o ser humano!
E o ser humano, logo quis imitar o seu criador e inventou um objeto confeccionado à sua imagem e semelhança e criou a boneca!

E é um pouco sobre a imagem das bonecas que eu quero falar um pouco hoje.
Quando estamos com as nossas bonecas, neste caso, com nossas Blythes, nos tornamos “pais” e “mães” de objetos confeccionados em borracha e plástico. Mas esses mesmos objetos materiais, sem vida, podem despertar em nós sentimentos humanos.

Por meio de nossas fantasias, criatividade e emoção, conferimos vida às bonecas. Um dos motivos pelos quais isso acontece está diretamente ligado ao fato das Blythes não estarem definitivamente acabadas e prontas, aceitando facilmente customizações das mais diversas.

Para uma Blythe ser uma Blythe, por exemplo, precisa da intervenção do ser humano, ou seja, de seu dono ou de sua dona. Essas bonecas nos permitem a arrumação dos cabelos, a troca das cores dos olhos, da maquiagem e das roupas. Por não serem cópias fiéis e proporcionais à forma humana contribuem para um constante exercício da nossa criatividade, da nossa fantasia e do nosso senso estético.

A boneca em nossas mãos torna-se nosso próprio espelho, refletindo nossas experiências de vida, culturais e estéticas. São vistas, virtualmente e presencialmente, pelas pessoas que queremos que elas sejam vistas.

Quando estamos com nossas bonecas exercitamos a divindade em nós. Nos tornamos um pouco Deus, pois elas se tornam dependente de nossos caprichos, vontades e desejos. Exercemos nosso domínio, nossa postura de criação e de cuidador, afinal, nossas bonecas se vestem de acordo com a nossa própria vontade, aliada, é claro, aos recursos financeiros com que dispomos.

O guarda-roupa de nossas Blythes poderiam se constituir um capítulo à parte. O ato de se vestir é puramente humano: o uso das roupas implica em um sentido social profundo pois envolve as questões de identidade de quem se veste, ou então, as questões de identidade de quem veste a boneca.

Ao vestir uma Blythe estamos nos conectando à uma rede de relações de trabalho: quem planta, colhe, comercializa, transporta, armazena, beneficia, transforma o algodão em fibra, depois transformando-o em fio para depois ser transformado em tecido; acionamos ainda quem tinge e estampa o tecido, quem comercializa o tecido pronto, quem compra os tecidos e os transformam, por meio do criação de modelos, corte e costura, verdadeiras obras de arte. Isso porque nem mencionei os aviamentos e a própria matéria prima utilizada para a confecção de nossas Blythes.

Independente da idade (cronológica e psicológica) que possuímos as bonecas se constituem em companheiras diretas de nossas vidas. Normalmente não conseguimos estabelecer essas mesmas relações com os outros objetos. Por meio das relações ser humano X boneca podemos vivenciar (inconscientemente ou conscientemente) alguns valores de humanidade: tratamos as nossas bonecas como podemos tratar as pessoas que nos cercam.

Quando criança, meninos e meninas, indistintamente, deveríamos ter brincado muito de boneca: a maneira que tratamos nossas bonecas nos permitem aprender a tratar as crianças que passarem pelas nossas vidas, sejam elas nossos filhos, alunos, ou as crianças que nos rodeiam diariamente. Por isso, a importância de se “brincar” e de se conviver com bonecas, quando criança (e talvez quando adulto também) por se constituir em uma oportunidade, um treino para se adquirir a responsabilidade necessária quando adulto, independente de sermos menino ou menina. Afinal, antes de sermos meninos e meninas, ou então, antes de nossos filhos (ou futuros filhos) serem meninos e meninas, não somos todos seres humanos que devemos aprender, desde cedo a conviver com outros seres humanos?

Nesta questão de convivência, penso que poderíamos refletir:
– Quem eu sou e, quem eu quero ser, como ser humano?

Será que tratamos melhor nossas Blythes do que as pessoas que nos cercam?
Muitos de nós conversamos com nossas Blythes, ficamos preocupados e pedimos desculpas quando deixamos nossa Blythe cair, sem querer, mas será que pedimos desculpas quando esbarramos com alguém? Somos gentis com as nossas bonecas, mas será que somos gentis com as pessoas que nos cercam (mesmo as desconhecidas)?

Tomara que as Blythes possam a nos ensinar a nos tornarmos seres humanos um pouco melhores.

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6 Comentários

  • Responder Dany 10/09/2018 at 15:18

    Que lindo texto !!! Estou entrando nesse universo das blythes agora . Queria perguntar a Tamara não lançou nenhum modelo nesse ano de 2018 ?? Procurei na categoria modelos lançados e não vi nenhum desse ano…
    Amando o site ..:**

    • Responder We Love Blythe 14/09/2018 at 11:03

      Olá, Dany! Obrigada por nos acompanhar aqui!
      A Takara lançou novos modelos esse ano, sim! Nós é que assumimos o site recentemente e não conseguimos atualizar tudo ainda.
      Mas estamos trabalhando nisso! Logo estará tudo certo.
      Abraços!

  • Responder irani vida 06/09/2018 at 05:42

    Parabéns!!!!Lindo texto!!!!Sou apaixonada por bonecas!!!!Penso que muitos adultos não brincaram com bonecas quando pequenos , sendo adultos sem amor ao próximo e até criticam adultos que colecionam bonecas, mas o que vale a pena é o que sentimos por elas e com certeza incomodamos muitos adultos. Não me importo o que os outros pensam eu simplesmente me afasto destas pessoas!!!!A pouco tempo conheci a Cristina Botallo que me levou a te conhecer admirando o trabalho de vocês e estou muito feliz por este site estar sendo administrado por vocês.Desejo sucesso !!!!!

    • Responder We Love Blythe 08/09/2018 at 14:24

      Oi, Irani, puxa, muito obrigada pelo seu comentário tão carinhoso e incentivador. 🙂
      Ainda estamos apanhando um pouco com a edição do site, mas estamos bem felizes por estar aqui. Obrigada pelo seu depoimento, e muito obrigada pelos elogios! Vou passar para o Vagner… Beijos! Cristina

  • Responder Érika Valéria Galindo 02/09/2018 at 16:15

    Oi!! Lendo e já fazendo uma ponte para um filme que gosto muito: O naufrago. A maneira como Chuck tratava Wilson e como ele caracterizou a bola para ser um companheiro. Você colocou muito bem esse aspecto da convivência,. Hoje falta , no mínimo cordialidade.
    Abraço e boa semana.

    • Responder We Love Blythe 08/09/2018 at 14:23

      Obrigada pelo comentário, Érika! 😉 Vou passar para o Vagner te responder… Ainda estamos engatinhando por aqui… rs

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